sexta-feira, 15 de maio de 2015

A Rosa Púrpura do Cairo



Trataremos, no dia de hoje, do filme “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo), dirigido por Woody Allen e tendo como protagonistas Mia Farrow (no momento em que o filme foi rodado, 1985, ambos eram casados) e Jeff Daniels.

Ocorre que é impossível falar com frieza desse filme, que é um dos mais sublimes da carreira do diretor nova-iorquino. O sujeito hipocondríaco, neurótico, egoísta e cínico presente em vários filmes de Allen (e em alguns interpretados pelo próprio) dá lugar a uma personagem sonhadora, sofredora, doce e que deseja mudar de vida, apesar de todo o resto conspirar contra. Vale dizer que este é um dos filmes preferidos do próprio Woody Allen. E não é difícil entendermos o motivo.


Cecília, personagem interpretada por Mia Farrow vive nos Estados Unidos dos anos 30 devorados pela Grande Depressão; também lhe faz mal o marido, que é agressivo, machista, agride-a e troca-a por outras mulheres. Além do mais, o caráter de sonhadora lhe impossibilita viver bem num mundo prático como é o mundo da classe trabalhadora. Essa conjuntura nos pede praticidade, pensamento rápido e manejo diante das intempéries do cotidiano, o que dificulta a vida da nossa personagem.


Sua válvula de escape nesse mundo abandonado à própria sorte é o cinema, um filme em especial: "A Rosa Púrpura do Cairo". Ao assistir o filme péla quinta vez, o personagem Tom Baxter (interpretado por Jeff Daniels) resolve partir para uma nova aventura: ele sai do filme, vai ao encontro de Cecília e ambos partem apara um misto de aventura e doçura, que será sufocado pela realidade. Tanto que, com medo de que outros personagens decidam sair das películas nas quais estão, os diretores de cinema e das salas de cinema entram em contato com Gil Sheppard, o ator que representa Tom Baxter, para que ele convença Tom a voltar para o filme. Cecília se vê apaixonada por um duplo: ora o ator, ora o personagem. Essa paixão terá um fim trágico, exatamente por ser um fim tão comum.

Podemos pensar em pontos de vistas interessantíssimos ao assistir tal filme. Primeiramente, há várias duplicidades que nos chamam atenção: Cecília é dividida entre um mundo triste, sombrio e sem perspectivas e, por outro lado, um mundo recheado de glamour, aventuras e sonhos. Isto é: podemos pensar a personagem com um pé no mundo real e outro no mundo do cinema. E é curioso notar que o mundo real abastece o cinema de tudo aquilo que ele não é e gostaria de ser, enquanto o cinema, ainda que munido de todo o brilho que falta à realidade, se torna imperfeito exatamente pela sua perfeição. As cenas onde Tom Baxter e Cecília estão juntos mostram bem essa carência. Arrisco a dizer que se esse fosse um livro de Dostoiévski, a ênfase seria no sofrimento de Cecília diante de um mundo que não pode mudar; mas Woody Allen não aponta tanto para o sofrimento, mas para a vida.

Há outra duplicidade que vale a pena ser mencionada: enquanto o personagem Tom Baxter é romântico e idealista (tal como Cecília), Gil Sheppard é pragmático, utilitarista, tem preocupações materiais e reais. Os dois despertam paixão em Cecília e, posteriormente, o seu abandono. É a personagem de Mia Farrow que constrói uma ponte entre arte e realidade, descartando todo o sentimento trazido pelos dois em troca de um novo filme a estrear no cinema. De certa maneira, Woody Allen faz um mea-culpa: a arte, ainda que despertando tanta coisa boa no ser humano, é descartável de tal forma? 


Creio que ele responderia que não. E essa crença pode ser corroborada pelo próprio argumento do filme: é o cinema falando de si mesmo, são atores se interpretando e reinterpretando. Tal como em filmes como "A era do Rádio" e "tiros na Broadway" (espero escrever sobre eles no futuro), aqui a arte fala de si própria; simultaneamente, ela fala da vida, da nossa vida. Não precisamos viver nos EUA dos anos 30 para querermos entrar nos filmes recheados de aventuras para fugir de nossos patrões e nossa miséria (financeira e moral). Acaba que, também aqui, a Arte se torna uma desculpa para falarmos de nós mesmos. 

Será que fazemos o contrário de Dom Quixote, que se vê nas novelas medievais, e queremos viver nos filmes que assistimos cotidianamente? A resposta seria um expressivo "não". Ainda que munido de um brilho que a realidade nunca terá o cinema acaba ao seu final, enquanto que os momentos decisivos na vida podem surgir como novos recomeços, inclusive a partir de coisas como a arte. Se na arte encontramos um mundo melhor, a vida é o que nos permite caminhar. E é nessa dialética entre Arte e Vida que encontramos "A Rosa Púrpura do Cairo". Filme indispensável para quem é amante da Arte. E da vida!


Esse filme encontra-se disponível para download no Sonata Premiere: 

Um comentário:

  1. Xará,
    Esse é um dos melhores filmes do Woody Allen - só não é melhor que o Poderosa Afrodite.
    Não foi você que mencionou certa vez o "A era do rádio" (Radio Days), do mesmo Woody? Se não, fica a dica!

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